Xapomi: a escola yanomami de puu

Xapomi: a escola yanomami de puu 
(Educação indígena yanomami)
Os Rios Profundos, ONG
Laboratório de Difusão de Repertórios, DELL-UESB-BA
 

O projeto Xapomi: a escola yanomami de puu é um projeto em educação indígena yanomami e tem por objetivo a difusão da meliponicultura – o cultivo “racional” de abelhas indígenas sem ferrão – entre as comunidades yanomami do Rio Marauiá. Trata-se de uma colaboração entre o Laboratório de Difusão de Repertórios, UESB-BA, e Os Rios Profundos, parceria atualmente desenvolvida pelo trabalho conjunto de seus respectivos coordenadores, os Professores Ricardo Martins Valle[1] e Anne Ballester Soares,[2] no Sítio Puraquequara, município de Santa Isabel do Rio Negro, AM.

Desde 2012, vêm sendo planejados e experimentados cursos multidisciplinares e atividades produtivas com membros de xaponos do Rio Marauiá, marcadamente as comunidades do Bicho-Açu, Pukima-Beira, Pukima-Cachoeira e Ixima, tendo como eixo motivador as abelhas nativas da floresta. Seguindo os princípios da educação diferenciada, contextualizada e bilíngue que orienta Os Rios Profundos e perseguindo os objetivos de disseminação multilateral de saberes para uma vida plena que norteiam o Laboratório de Difusão de Repertórios, o projeto é um piloto que pode e deve ser desdobrado e multiplicado em outros que o aperfeiçoem.

Nos últimos 2 anos têm sido ministrados cursos associados de língua portuguesa e meliponicultura, que foram apelidados “Curso de Puurtuguês”. Visando sempre à valorização da língua yanomami e ao domínio instrumental do português como segunda língua, o ensino de língua portuguesa visa apenas aos yanomami já alfabetizados na língua materna e que, seja por necessidade da posição de liderança no xapono, seja por interesse pessoal de outro tipo, queiram aumentar a compreensão do modo de os napë fazerem sair os sons com que dizem as coisas. A partir dessa prática multidisciplinar, está sendo produzida uma cartilha sobre a meliponicultura, bilíngue e adaptada às práticas yanomami. Esse material começou a ser produzido em janeiro de 2016 com a colaboração de três yanomami do Ixima, Maurício, Labão e Felipe, primeiramente na forma de um pequeno manifesto pela meliponicultura, a ser distribuído nas reuniões de PGTA que devem ocorrer em abril e em outubro deste mesmo ano.

Já temos constituído alguns quadros de multiplicadores em ao menos três xaponos do Marauiá, a saber, no Ixima, no Pukima-Beira e no Pukima-Cachoeira. O número desses interessados tende a aumentar em vista dos primeiros resultados, que apenas agora começam a ser observados. A partir daí esperamos poder aumentar proporcionalmente o número de meliponários-escola que cada xapono envolvido deve constituir no decorrer do projeto.

Puu (pronunciada com hiato: pu-u) significa em língua yanomami, ao mesmo tempo, “mel” e “abelhas”, conforme a articulação que o termo toma na frase. A palavra parece ter origem numa onomatopeia: a imitação do som surdo, intenso e levemente oscilante que um enxame faz dentro do oco de um tronco: puu-uu-uu. E, em toda a terra yanomami, abelhas vivendo em troncos são muitas e de muito tipos: Himoto, Mamokahiwë, Yamona, Pahari, Timi, Õi, Hĩxi, Xapomi, e um enorme etc. O mel, contudo, é raro para um yanomami. Como são discretas, não é todo dia que são descobertas em seus ninhos, ainda que possam ser vistas pelas flores em uma quantidade e uma variedade dificilmente vistas em outro lugar do mundo.

A bela e pacífica Xapomi dá nome ao nosso projeto, primeiro por se tratar de uma das mais apreciadas abelhas para criação, conhecida como jandaíra pelo cabloco amazônico por sua semelhança com a jandaíra nordestina, Melipona Subnitida. Mas também porque, num dos primeiros “cursos de puu”, seu nome fez lembrar xapono, a casa circular coletiva que caracteriza o povo yanomami e constitui um dos fundamentos de seu universo.

O que a criação de abelhas indígenas em territórios indígenas pode trazer para a vida das comunidades do Território Yanomami?

. as abelhas indígenas, ou nativas, como seus nomes dizem, são endógenas, ou originárias do próprio território, tendo, por isso, papel fundamental para a ecologia da Urihi a, a floresta-mundo em que vivem os yanomami e os seus espíritos;

. mais de oitenta por cento das sementes e frutos que a floresta produz para se renovar ou para servir de alimento a homens e animais dependem da polinização das diversas espécies de puu pë, as abelhas indígenas de seu território;

. ao contrário da apicultura, o cultivo de abelhas do gênero Apis, conhecidas como “europa”, “italiana” e, hoje, “africanizadas”, a meliponicultura não oferece riscos a quem manuseia os enxames, uma vez que as abelhas melíferas nativas não têm ferrão;

. o ensino acerca das abelhas naturais do continente americano é potencialmente multidisciplinar, podendo envolver da biologia à literatura, da matemática às ciências sociais, da zootecnia às técnicas agroflorestais, promover ensino ao ar livre e adaptado aos modos de vida yanomami;

. o cultivo “racional” de puu pode substituir a prática da coleta predatória tradicional, pela qual ninho e árvore terminam destruídos: a meliponicultura não só não elimina as matrizes da floresta, como as multiplica dentro dos meliponários;

. mesmo antes de se observarem resultados relevantes na cultura do mel, pode-se obter no curto prazo extrato de própolis caseiro, excelente remédio e preventivo para muitos diversos males, de frieiras a doenças contagiosas, de feridas a doenças degenerativas.

. depois de iniciada a criação, o meliponário tende a crescer exponencialmente no médio prazo, aplicando práticas como o uso de iscas, a divisão dos enxames e o saneamento e prevenção contra pragas;

. depois de ampliada e profissionalizada a criação de abelhas, podem-se pensar mecanismos de comercialização da própolis (no médio prazo) e do mel (no longo prazo), sendo uma fonte futura de renda para as populações indígenas, que, vivendo hoje no limite da segurança alimentar, têm-se tornado dependentes de subsídios governamentais, o que põe em risco a sobrevivência de sua cultura;

. a criação de abelhas pode tornar-se eixo temático multidisciplinar de parte dos conteúdos das escolas  indígenas yanomami, devendo seu manejo estar sempre associado prioritariamente à prática educacional, mesmo e principalmente quando se apresentarem os resultados econômicos;

. a criação de abelhas pode ser introduzida na vida indígena de forma cooperativa, pensada e regrada a partir de princípios de autogestão, mas adaptados dos princípios com que os próprios yanomami fazem e repartem as roças e as caças.

Promover a criação de abelhas indígenas entre comunidades indígenas é particularmente importante num momento histórico como este em que as lideranças dos territórios indígenas de todo o país estão formulando seus Planos de Gestão, de acordo com os termos da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas – PNGATI (Decreto no. 7.747-2012).

A regularidade legal da prática, seus benefícios em educação, alimentação e saúde dessas comunidades e a segurança do manejo das abelhas indígenas são alguns dos aspectos que tornam irretorquível o argumento em defesa da difusão deste saber prático em particular, associado ou não a outros que forem pertinentes e demandados pelas comunidades envolvidas. Trata-se, assim, de um momento particularmente estratégico para que projetos em meliponicultura se multipliquem junto às comunidades tradicionais de país todo.

Se os projetos forem conduzidos de forma social e ecologicamente responsável, como devem ser, os benefícios econômicos oriundos do mel, com geração de renda relevante para comunidades indígenas, devem demorar a serem observados na prática. Mas os benefícios de curto prazo na educação e saúde, e os de médio prazo na alimentação, sustentam a viabilidade da difusão do projeto, e garante a persistência no rumo de seus últimos e mais distantes frutos.

Num cenário político em que os povos indígenas são novamente ameaçados pela PEC 215, o argumento da meliponicultura indígena demonstra, de forma cabal, que o bioma natural que os modos de vida indígena preservam é capaz de ser altamente “produtivo”, sem deixar de reter carbono (redução de gases do efeito estufa), proteger e repor mananciais de água, equilibrar os sistemas de chuvas e clima, produzir biomassa em escala, preservar a biodiversidade e prover todos os outros inumeráveis frutos, fibras, raízes e óleos da floresta.

Recomendamos, pois, às lideranças indígenas e aos indigenistas em geral, que incluam o tema nas pautas dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental que estão sendo produzidos em todo o país. Certamente, os altos valores do produto final – os particularíssimos tipos de mel indígena – ostentarão a legitimidade econômica da terra indígena, em termos de produtividade. Com efeito, um quilo de mel indígena, que mantém a floresta em pé, custa algo entre 30 ou 40 vezes mais do que um quilo de soja, e 3 ou 4 vezes mais do que um quilo da carne mais cobiçada, e sabemos que soja e gado são responsáveis pela devastação de áreas a perder de vista em todo o país, multiplicando “crises hídricas”, ameaçando lençóis freáticos, empobrecendo o solo, eliminando a biodiversidade e aprofundando e aconselhando as consequência do efeito estufa.

A meliponicultura florestal é, neste contexto, mais um argumento a legitimar perante a comunidade não-indígena circundante a propriedade indígena da terra e fortalecer o sentido de pertencimento territorial. É mais uma razão para manter em suas terras as comunidades que tradicionalmente nelas vivem e transformar para melhor a qualidade do contato interétnico, conferindo às comunidades indígenas mais autonomia na relação com o universo não-indígena em redor e diminuindo a força de atração que as atividades da sociedade envolvente exercem sobre seus modos de vida.

[1]     Ricardo Martins Valle é meliponicultor, professor de Letras Coloniais e Literatura Brasileira, na UESB, e doutor em Letras, pela USP, com a tese Instituições da coisa bélica, onde estudou as instituições supostas às representações poéticas da guerra na poesia colonial brasileira e as legitimações teológico-políticas da “guerra justa” contra o índio e da aculturação de seus modos de vida; é coordenador do Laboratório de Difusão de Repertórios.

[2]     Anne Ballester Soares é professora bilíngue yanomami-português; organizadora e tradutora, em parceria com Otávio Ironasiteri Yanomami, do volume Nohi Patama Parahiteri pë rë kuonowei të ã. História Mitológica do grupo Parahiteri (Ecidade/Hedra); vive entre os yanomami de forma quase ininterrupta desde 1994, tendo trabalhado na saúde indígena e alfabetizado em língua yanomami a maior parte dos professores que atualmente lecionam nas escolas dos xaponos do Marauiá; é coordenadora de Os Rios Profundos.

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